segunda-feira, 11 de junho de 2012

Nº 34 Avaliação dos textos sobre o consumismo


A senda de nossa vida é mutante e flexível, não há receitas, segui-la é abraçar  um processo probalístico e não fatalístico.

Com muita meditação, muita inspiração e transpiração, conseguiremos abrir, a cada novo instante, novos caminhos para nossa evolução maior.  Atingiremos um sábio discernimento, para atuarmos na sociedade técnico-burocrática de consumismo dirigido que é a nossa.

Apenas desejamos oferecer 03 tópicos para nossa reflexão:

1 - Será certo empregar o tempo precioso de nossa vida nos movimentando dentro deste círculo infernal?














2 - Os poetas são as antenas da humanidade.  Que lhe diz o seguinte poema de Carlos Drummond de Andrade?  Observe seu tom mordaz, próprio do estilo pós-modernista.


Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu corpo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
da sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê-la - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou subordo algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco de roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costura, sou tecido,
sou gravado de forma universal
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como sígno de outros
objetos estéticos, tarifados.
Por me ostentar assim tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.


3 - Em que podemos relacionar o seguinte ensinamento com as postagens referidas deste Blog: 30, 31, 32 e 33?

A Iluminação Cósmica proporciona ao indivíduo o conhecimento de todas as coisas, pois sua fonte é a própria Consciência de Deus.

Na busca amorosa do Bem, às vezes, existe a dolorosa sensação de queda e privação, mas sem este amor a lei centrífuga nos dominaria completamente e baniria nossa alma para longe de sua fonte, às extremidades insensíveis do material e da multiplicidade.  Com este amor, o sábio reconhece a ideia do Bem em seu próprio interior, expandido seu ser para cima, rumo à fonte divina que flui dentro de si, isto é, reintegrando-se ao Uno Primitivo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nº33 Mercadoria antropomorfizada, homemcoisificado




          Hoje, 13 de maio de 2012, Dia das Mães e da Abolição da Escravatura no Brasil, dedicamos este blog às mães e aos afro-brasileiros, desejando-lhes sempre uma vida humana e onde a liberdade e o amor encontrem sua verdadeira significação, sem qualquer semelhança com Alphaville. Que as palavras que usamos para expressarem nossos desejos não sejam estereótipos comerciais, que aprendamos a tirar a ferrugem das palavras, como pede o poeta Domício Proença Filho, autor de excelentes livros de Poesia Negra.
          Como um preito de gratidão, oferecemos-lhes este estudo que  intitulamos "Mercadoria antropomorfizada, homem coisificado".
           Terrível quiasmo que nós mesmos criamos.
           Já não temos mais controle de suas consequências : os bullings, o tráfico e uso de drogas, a violência, a corrupção, a histeria coletiva: incêndios, quebrações.
          Os poderosos causam as crises, vão impor novos sacrifícios durante as crises e, se vencerem, continuarão injustos e gananciosos.
          Os diversos meios de informação da sociedade contemporânea, divulgadores de uma ideologia aristocrática, direitista, estão intoxicando o homem e obrigando-o a agir e pensar de uma forma pervertida e irreal, despertando necessidades que não são humanas, bloqueando-lhe comportamentos e ideias que deveriam ser exercitadas para seu próprio apefeiçoamento e desenvolvimento.
         Predomina a reificação - os homens são coisas - e as coisas estão personificadas, elas é que determinam a vontade e a consciência dos homens. A criatura humana reduz-se a um boneco que caminha com trejeitos pavlovianos, entre objetos que vivem, falam, sorriem e lhe estendem os braços.
         Este quiasmo é um obstáculo para que entremos na "nova era", a era de paz e amor; discuti-lo é estudar uma dimensão do trágico moderno, em suas mais ásperas contradições, que não se resolvem só no plano metafísico, mas que se desenrolam num plano especificamente social.
          Os tons melífluos e atraentes da canção do consumismo põem em risco toda e qualquer certeza existencial, fazem-nos perder a direção e nos empurram para o abismo. O Todo nos procura e não nos pode encontrar porque estamos fragmentados, esmigalhados pelo fator econômico.
          Os consumidores necrosados, como outros tantos "morituri" do império romano, repetem a frase: "Morituri te salutant". São aqueles que devem morrer, isto é, perder sua identidade, adorar os fetiches que internalizaram. Mesmo assim saúdam as máquinas e a máquina econômica com seu sistema de opressão e bloqueio.
          Quando, por exemplo, damos preferência a pratos típicos mineiros como torresmo e lombo assado ou estamos assistindo a uma festa folclórica e estamos pensando ser muito originais e autênticos, na verdade, nos venderam mais esta ilusão e nossos atos não passam da manifestação da praxis fetichizada e fragmentária, no tráfico e manipulação de mercadorias.
          O indivíduo deve andar em peregrinação pelo mundo para conhecer e ajudar a si mesmo e aos outros. Mas, neste simples andar pelo mundo, o sujeito modifica o mundo e a experiência obtida o modifica porque sua visão passa a refletir a sua posição para com o mundo, nas suas variações de uma ação revolucionária ou resignada.
           Os censores temem perder suas vantagens e buscam manter a ordem implantada, mas o que se encontra é o caos, coisas múltiplas e desconexas, a falta de sentido. Tentar recompor o Todo parece uma tarefa de Sísifo. Ou estará na hora de engendrar a estrela de Niezsche?
          Não temos a resposta para solucionar o problema.
          Estamos ainda num semelhante impasse ao da cidade de Alphaville da célebre invenção de Jean-Luc Godard da década de 60. Vejam o DVD deste filme. A cidade é dominada pelo computador, pelo racionalismo, que aboliu os sentimentos. O agente Lemmy Caution que não pertencia à cidade vai lá, com a missão de encontrar seu inventor, o Prof. Von Braun, e convencê-lo a destruir a máquina. Mas já que não pôde destruir o computador, todos ficaram sujeitos a desumanizar-se. Todo mundo preza a segurança lógica, a organização de Alphaville , entretanto perde o sentimento. Um dos habitantes foi condenado à morte porque chorou quando a esposa morreu. Chegaram a criar uma Bíblia que era um dicionário que a população de lá tinha que seguir, sob pena de ser castigada, de ser friamente eletrocutada. A palavra paixão foi abolida do dicionário, passou a ser "volúpia". Não se pode investigar o "por quê?" e sim só usa o "porque" que é indiscutível. Faz-nos lembrar o conceito de Rimbaud, poeta francês, "mudar a linguagem é mudar o mundo", embora numa circunstância muito diferente da que estamos falando. Há os faltosos que dão chance de recuperação, isto é, de voltarem a ser máquinas, são enviados aos h.d.l., hospitais de doenças longas. No final, os habitantes perdem a força cambaleiam, não conseguem andar. Dizem que a causa foi a falta de claridade, provocada pelos edifícios.
             E agora, José?
             Lembremos a canção espanhola: Caminhante, não há caminho, o que há é o andar

                   


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nº 32 A doce canção do consumismo - continuação


            A toda-poderosa ideologia burguesa dominante, utilizando seus aparelhos de persuasão, parte do homem e de sua liberdade  para mascarar  e impor a ilusão do livre poder humano, quando , na verdade as forças poderosas pertencem `a exploração capitalista.
            Acontece que todas as propagandas, políticas, comerciais, religiosas  ou outras usam a técnica de " dourar apílula". Ovídio, poeta latino do começo da era cristã, em uma de suas poesias eróticas, Os amores, escreveu uma frase muito familiar: "Sob o doce mel escondem-se venenos terríveis". Tal sentença é polissêmica, no momento queremos chamar a atenção para os discursos usados na comunicação, falsos, enganadores,camuflados. Aprendam a lê-los pois o "doce mel" esconde o veneno terrível da exploração capitalista. Todos eles foram forjados por cabeças ambiciosas, repletas de cifrões. Se formos citá-los vamos escrever um livro. É preciso que todos observem as mercadorias, a Internet, as revistas etc. Vivemos no reino das aparências. A nossa insa- ciável procura por uma resposta está muito além dos conteúdos das tresloucadas propagandas. Santo Agostinho (354-430), um dos principais filósofos da era cristã é extremamente atual em muitas de suas reflexões. Assim, na obra A cidade de Deus,  referindo-se à felicidade perene, escreveu: "Não pode saciar a fome quem lambe pão pintado".
            E não pára, a cada fase do processo de acumulação de capitais, correspondem mecanismos  condicionadores que conquistam os corações e as mentes.
              A uma grande concentração técnica corresponde uma concentração burocrática. A concentração técnico-burocrática visa ao lucro, às oportunidades políticas e, para isto, procura atrair o consumidor, lançando sempre um produto "novo".
              Esta engrenagem da produção desarticulou todas as antigas relações sociais, o homem tornou-se paradoxalmente uma presa de seu sistema .
                Neste ponto, a psicanálise de Freud coincide com a diálética da civilização: o próprio progresso da civilização conduz à liberação de forças cada vez mais destrutivas.

                        Ao sofrer os ataques do super-ego ou talvez ao sucumbir a eles o ego está enfrentando um destino semelhante ao dos protozoários que são destruídos pelos produtos de desintegração que eles próprios criaram. The ego and the id. Londres, Hogarth Press, 1950, p. 66.


                        O homem, transformado em marionete, movido por fios manipulados pelos Viscondes Coca-Cola  e por outros, produz objetos em massa  para causar-lhe um prazer narcotizante (diferente do preconizado por Epicuro) e manter sua alienação; ao mesmo tempo, fabrica vedetes  ou seja olimpianos modernos, as "celebridades" tais como Tony Ramos, Pelé, Xuxa, o Papa João XXIII, Michael Jackson, Batman, Rodrigo Santorum e muitos e muitos outros. Eles lá estão na revista Caras e em toda a mídia. São os novos deuses do século XX eXXI ou a redivinização dos antigos, que se presentificam insistentemente nos MCM.
                 Tenham eles intenção ou não de se vedetizarem, vendem sua imagem, tornam-se verdadeiras mercadoria. Geralmente se comprazem com sua situação privilegiada e concorrem para tornarem-se objetos de raro valor e contibuem  para a massificação, a automatização e o consumismo desenfreado do homem. Hoje, sem dúvida nenhuma os novos deuses do capitalismo substituíram os antigos valores da religião e da família. A sociedade adora os ídolos de carne e osso e a eles se oferecem no altar do consumismo.
                  Certos nomes tradicionais são usados, quase sempre, apenas como iscas. Vejamos uma das inúmeras propagandas políticas, intitulada "Tempo de Natal":

                   Senhor Jesus
                                      Ante o Natal
                                      Que nos refaz na Terra o mais formoso dia,
                                      Somos gratos a todos os irmãos,
                                      Que te festejam,
                                      Entrelaçando as mãos
                                      Nas obras do progresso.

                                   
                                      Está repleta de estereótipos linguísticos e mentais capazes de impressionar os eleitores , inclusive o nome de Jesus. O candidato quer é o seu próprio progresso material,  é aumentar cada vez mais sua capacidade de consumo.
                    É preciso aprender a diferençar a linguagem apelativa da linguagem autenticamente emotiva e poética.
                     Os olimpianos concentram na dupla natureza o germe pernicioso da projeção-identificação. Realizam as fantasias que os mortais não podem realizar e incitam a si próprios e os outros mortais a realizarem o imaginário impossível. Conjugando o cotidiano com o divino, os olimpianos são os modelos da cultura de massa que tendem a destronar os antigos modelos: pais, educadores, heróis nacionais, Deus e os santos.
                    A mitologia olimpiana é uma faca de dois gumes em relação à cultura de massa. Se ela é um instrumento ideológico a serviço da alienação do povo, se é o ópio sociológico, é simultaneamente uma prova da estupidez da sociedade industrial, porque o tema de liberdade e de felicidade que se apresenta ostensivamente na tela ou na imprensa é impossível de se realizar no mundo fechado, burocratizado.
                     É certo que as vedetes destroem os valores tradicionais e mantêm os sonhos projetivos, mas, ao mesmo tempo, transformam alguns desses sonhos em aspirações. Trata-se de uma problemática universal que merece longas considerações. Cabe-nos apenas dizer que não é possível manter a humanidade num sonambulismo permanente e que o processo de projeção e identificação sofre uma inversão e torna-se um agente de inadaptação e crime, como já estamos desesperamente sentindo na própria pele.
icionais


                                    

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Nº 31 Verão no Brasil




  •            Os incentivos do verão ocuparam um pouco nossas reflexões para redigir o 31º blog de nossa produção. Não procuramos isolar-nos numa "torre de marfim". Estudamos as festas do verão brasileiro inclusive o carnaval. É uma brasa... no Brasil.
  •             O fogo do Sol, o calor infernal, as orgias, a liberação desordenada dos instintos, o excesso de bebidas , uma certa nudez exibicionista, o culto exagerado à matéria, especialmente no carnaval são alguns fatos que justificam ser o verão em certos lugares regido pela carta nº 15 do tarô , o Diabo.
  •             O Diabo está solto no verão. Mas ninguém se assuste , pense primeiro na ambiguidade do arcano nº 15: ele é Satanás , mas também é Lúcifer, o portador da luz. Em nossa cultura há desprezo  pelo material, ao qual se associa o Diabo, sentimento vindo da Idade Média , quando o tarô chegou à Europa.
  •            Porém, as religiões antigas consideravam que a energia espiritual e sexual eram a mesma. O uso indevido de uma ou de outra é que gera o mal, a perversão. No Antigo Testamento, o próprio Jeová diz: "Eu sou o Senhor e não há mais ninguém. Formo a luz e a escuridão. Faço a paz e crio o mal: Eu, o Senhor, faço todas as coisas ."
  •             Psicólogos afirmam que o descuido pelo lado demoníaco do homem é a principal causa das desgraças do mundo de hoje. Nossos instintos reprimidos e não trabalhados, agora explodem em forma de guerras, crimes, destruição geral. Diante do desequilíbrio atual, é imperativo um acordo com a força diabólica . Estamos na era da relatividade, há uma relativização entre o bem e o mal, não se sabe onde começa um e acaba o outro. Jung, em a Interpretação do dogma da Trindade, admite uma quaternidade arquetípica, onde o diabolus seria o quarto elemento, opondo-se ao Filius.
  •             O homem é uma alma que se consubstancia no corpo. A carta nº 15 se imiscui em nossas vidas no verão e mesmo nas outras estações. Não escapamos de vivenciá-la. A matéria não é má, mau é o uso que muitas vezes fazemos dela. Se enfrentarmos os fantasmas do inconsciente, não nos furtaremos a receber o lado luz do arcano nº 15: o êxito nos estudos, no trabalho e para ganharmos dinheiro, o vigor físico, a versatilidade, o magnetismo pessoal.
  •           Que o calor, o renovar de energias, as horas de folga, de confraternização, de encontros amorosos no verão nos façam refletir sobre o destino da natureza humana. E já não sendo mais ingênuas criancinhas presas aos códigos superpostos da cultura, assumamos a responsabilidade  em face da inquietante frase de Sartre:"Estamos condenados a ser livres." Nosso corpo é uma flauta onde Deus sopra , não deixemos nossa flauta desafinar no estuante e pleno verão!
  •              Não somos alienados. Temos uma consciência clara e adogmática dos fatos. Arejamos nossas ideias e assim chegamos a estas conclusões necessárias e que acabamos de passar a nossos leitores.
  •              Voltaremos, como prometemos, ao tema que iniciamos no blog Nº 30.
  •              Uma das manifestações do "capetalismo" está na muito doce canção do consumismo. Ela é falsa e insistente.
  •             Observemos:
  • Tome cerveja, tome cerveja numa propaganda linda e insinuante. Bem rapidinho o aviso: Se dirigir, não beba.
  • A aids é contagiosa e perigosa. O aborto é crime. Mas, seja atraente e sexy com tal ou tal produto de beleza. Assista a filmes, novelas, programas da mídia para preencher o vazio da sua vida. Ligue a Internet e veja dezenas de sites pornográficos. Fulana de Tal nua na Playboy. Bata o pezinho, faça beicinho e leve seu namorado para o Motel Snob.
  • Remédios e aparelhos para emagrecer, ao mesmo tempo, uma irresistível gastronomia.
  • Et coetera, et coetera... Continue esta análise, é um excelente exercício.
  •              Na propaganda tudo vai bem no melhor dos mundos possível. É o otimismo da mentira, não gosta do não, nela há uma profusão de sins, de sorrisos, de sensacionalismos, de qualidades indiscutíveis. É a linguagem apelativa a serviço de  para angariar o lucro comercial ou de fazer o receptor  um homem comportadinho para ajudar a manutenção do sistema social e não abalar o bem-estar das classes privilegiadas.
  •          A dominação, a compulsão repetitiva, os fluxos utópicos por ela produzidos  são sempre suspeitos.
  •           A moderna tecnologia de comunicações  de massas, os fundos generosos da empresas e dos governso interessados na propaganda hipertrofiaram seu valor e atuação.Para isso intensificaram-se o aperfeiçoamento de suas técnicas,  as pesquisas junto a grupos sociais, com o fim de estudá-la e ela constitui-se uma ciência de gabinete.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Nº 30 A doce canção do consumismo

Como dissemos no blog nº 28: Temos que decidir ser múltiplos sem perder nossa unidade com o Todo, de onde viemos. A individualização é dramática. Corremos o risco de nos perdermos na prostituição da aparência.

Chegamos à conclusão que reintegrar o múltiplo na unidade é um dos maiores problemas humanos, desde o pecado de Adão e Eva no Paraíso.

Buscando amenizar este problema, partimos da reflexão sobre o Ser e o Ter, que muito se comenta e nada se resolve. Hoje, no Ter, no consumismo, reside a maior manifestação exagerada do múltiplo.

O ser humano é o verbo. Emana do Ser Essencial (Deus), que é o Substantivo, efetiva-se Nele para funções da Vida Dele. A vida do ser humano é parte da Vida do Ser Essencial e subsidiária a esta. Todas as vezes que nos distanciamos desta nossa função superior, transcendente, ligada ao Ser Essencial e nos dedicamos exclusivamente, numa atitude egocêntrica, às coisas e fenômenos puramente físicos, sem vida, entramos em desequilíbrio e desequilibramos o mundo. Todas as vezes que esquecemos nossa origem divina, que nos entregamos completamente ao prazer material, que nos coisificamos nos shops, mercados, no mundo do consumismo, da robotização, somos infelizes, porque perdemos nossa reintegração na unidade.

Para sermos unos, como corolário de nossas proposições, resumimos o seguinte:

- manter a solidariedade, o poder mental, a alegria de viver;

- manter atitudes, ações e ideias de presevação do habitat natural do ser humano e dos demais seres vivos;

- procurar resolver nossos problemas sociais como o tratamento do lixo, o cuidado especial com a água, o combate enérgico às injustiças sociais;

- não perder a criatividade sadia e construtiva;

- exercer uma obra assistencial, acabar com a fome, a miséria, os vícios etc.

Tudo isto concretamente, num plano, resoluções e comportamentos concretos. O abstrato encobre covardemente a necessidade de assumir uma posição.

Até aqui fizemos um preâmbulo para enfrentar os acordes insidiosos da "doce canção do consumismo".

Agora, num enfoque eminentemente sócio-cultural, tentaremos dar explicações pertinentes a nosso tema.

Uma das condições fundamentais da Revolução Industrial que se deu nos séculos XVIII e XIX foi a substituição do trabalho artesanal pelo trabalho assalariado, baseado na utilização das máquinas. No primeiro, a eficiência depende da habilidade profissional de cada trabalhador , ao manejar suas ferramentas , isto é seus instrumentos de trabalho. No segundo, a qualidade do trabalho depende menos da habilidade profissional de cada trabalhador que da máquina. O trabalhador perde muito de suas potencialidades humanas e passa a ser um apêndice da máquina e um fator de multiplicação dos lucros capitalistas.

A explosão populacional, consequência da Revolução Industrial, é outra condição nova para a humanidade.

Séculos e séculos se passaram para que a população global da Terra atingisse um bilhão de habitantes, o que se deu em l830. Daí bastaram apenas cem anos para que esse número dobrasse; dois bilhões de habitantes em 1930. Três décadas depois, em 1960, já éramos três bilhões de habitantes. Em 1975, somávamos quatro bilhões. Crescemos em proporção geométrica, gerando graves problemas para todos aqueles que se preocupam com o futuro da humanidade. E assim continuou. Em 1998, seis bilhões de pessoas. Agora, em 2011, 7 bilhões de habitantes. Como alimentar bilhões e bilhões de pessoas que estão e estarão sobre a Terra? Como educá-las, dando-lhes oportunidade de usar o legado cósmico a que têm direito em virtude de possuírem uma personalidade-alma?

Não é vivendo alienados aos problemas da humanidade que vamos entrar na "nova era", não somos criaturas excepcionais, à margem do mundo, os problemas estão também em nós, fazemos parte deles e temos que nos ocupar em resolvê-los. Irritação e preocupação, não, mas ocupação , sim. Uma séria e constante ocupação tem que ser nosso lema, sem perder o sentido lúdico da vida.

Não é alhear-se ao mundo objetivo, ao corruptível e viver no mundo incorruptível que faz o homem alcançar a paz e manifestar o contetamento sincero. Para que o alheamento da consciência a nossos conflitos possa ocorrer, uma desalienação se impõe como uma árdua, longa e ardente conquista. O alheamento não pode ser alienado.

O avanço tecnológico que proporciona ao homem a possibilidade de reinstalar-se no mundo e aperfeiçoar-se tem sido também uma causa para sua mecanização e desumanização.Tem sido utilizado mais para fins materialísticos que espiritualísticos. Mesmo as pessoas ditas religiosas , na maioria das vezes, têm uma visão sectária da religião e o que desejam , no fundo, é comprar um pedaço de Paraíso para depois da morte.

Consideremos que com tamanha explosão demográfica, com o cerceamento da criatividade, com a massificação do trabalho, mais atento ao valor da troca que ao valor de uso das mercadorias, somos seduzidos pela canção das sereias. Não conseguimos nos amarrar no mastro do navio como fez Ulisses na Odisséia.

A "doce canção do consumismo" lança em nossa mente seus acentos insidiosos por toda parte: nos ônibus, nos cartazes da rua, em nossos lares através do rádio, da televisão, da Internet etc. etc.

Com o acréscimo dos signos visuais e musicais aos signos verbais, ela aumenta seu poder, as imagens passam através da rede das nossas disposições e valores conscientes e convocam reações sub e hiperliminares, isto é, reações motivadas por associações traiçoeiramente induzidas ou provocadas pela mobilização ostensiva dos seus meios de fascínio como num ritual religioso ou num show de rock.

Continuaremos a desenvolver o mesmo tema no próximo número.



sábado, 27 de agosto de 2011

nº 29 A inteligência trágica na poesia de Augusto dos Anjos

Continuamos estudando Augusto dos Anjos, o poeta da estética do horrível, pois o horrível também pode produzir beleza.

A fisiologia atual do cérebro descobre uma ligação entre a excitação de centros nervosos topograficamente distanciados e a agitação emocional. As dissonâncias unem imagens díspares, fazem a excitação destes centros nervosos distanciados.

A poesia de Augusto dos Anjos está repleta de idéias chocantes , de dissonâncias fono-léxico-semânticas. Não busca somente nadar contra a corrente, no sentido formal de protesto contra a lisura e a harmonia do verso convencional, mas antes deseja representar enfaticamente fatos significativos de sua vida cheios de contradições , estremecidos pelas lutas, patéticos.

Influências mesológicas e sociais, como a decadência econômica por que passava o Nordeste Brasileiro, a formação cultural do poeta, seu temperamento, sua psique, sua doença propiciaram a criação de uma obra literária que apavora os leitores choramingas e sentimentalóides. Ler a sua obra é combater a preguiça mental.

O poeta surpreende-se frequentemente diante de uma vida sem amor, sem grandeza, sem explicação e ameaçada pela morte, pois foi tuberculoso numa época em que a tuberculose não tinha cura. Morreu aos 30 anos de idade. Em busca do unívoco e do absoluto, debate-se na solidão, entre as ambiguidades e contradições do mundo e um deus mudo e escondido. Vemo-lo às voltas com suas apreensões, motivadas pelas descobertas de suas contigências que são basicamente as contigências da criatura humana: perder-se na "teimosia da multiplicidade", não sabendo regressar à unidade.

Não conta suas penas para outra pessoa. Parece que se dirige à divindade e esta não lhe dá atenção. O pensamento não pode desprender-se das redes que o proíbem de saber a razão de sua perda. Pode-se dizer que se conserva como o Édipo de Sófocles num discurso emocional que exprime sua incapacidade de compreender, de ter uma resposta sobre algo que o transcende. Melhor definindo, é um grito próximo de um solilóquio. O eu-lírico o mais das vezes, vai gritando sozinho, sob os maus tratos do destino, não se cansa de apontar o mecanismo terrível do mundo que o mutila mas não se desvenda.

Apoiados n'A origem da tragédia de Nietzsche, que deve ser estudada à parte, bem como o Eu e outras poesias de Augusto dos Anjos e sua biografia, consideramos a mencionada obra poética "uma trágica festa emocionante", aproveitando uma expressão que o próprio autor usou no poema "Monólogo de uma sombra". O sofrimento e a destruição do indivíduo causando o prazer metafísico trazem instintiva e inconscientemente a sabedoria dionisíaca em linguagem de imagem. O herói da tragédia, a maior aparição de vontade, por ser apenas aparição, não prejudica com sua destruição a vida eterna da vontade. Nietzsche toma vontade aí num sentido ampliado e inesperado, como fez o filósofo Schopenhauer, englobando todas as forças do mundo e da natureza.

Com uma alegria embriagante combinada com um prazer apolíneo, proporcionado pela organização parnasiana dos versos e, ao mesmo tempo, realçando os comentários filosóficos que estamos tecendo, transcreveremos três poemas de Augusto dos Anjos . Procuraremos reproduzir a ortografia que ele usou.

VOX VICTIMAE

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Morto! Consciência quieta haja o assassino

Que me acabou, dando-me ao corpo vão

Esta volúpia de ficar no chão,

Fruindo na tabidez sabor divino!

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Espiando o meu cadáver resupino,

No mar da humana proliferação,

Outras cabeças apparecerão

Para compartilhar do meu destino!

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Na festa genethliaca do Nada,

Abraço-me com a terra atormentada

Em contubernio convulsionador...

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E ai! como é boa esta volúpia obscura

Que une os ossos cansados da Creatura

Ao corpo ubiquitario do Creador!

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Nota-se o prazer erótico do poeta ao exaltar-se numa busca festiva de união com a terra e o Criador. A vítima tem a alegria em ser imolada, encontra o prazer pelo aniquilamento e pelo retorno ao seio do Uno-Primitivo, nas palavras de Nietzsche. É a aliança fraternal da arte pela excitação tanto apolínea quanto dionisíaca. "Que a mais alta expressão de dor estética/ Consiste essencialmente na alegria -nos diz o poeta no "Monólogo de uma sombra".


LOUVOR À UNIDADE


Escaphandros, arpões, sondas e agulhas

Debalde applicas aos heterogeneos

Phenomenos, e, ha innumeros millenios,

Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas!

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Une, pois, a irmanar diamantes e hulhas,

Com essa intuição monística dos gênios,

À hirta fórma fallaz do 'oere perennius'

A transitoriedade das fagulhas!

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_ Era a estrangulação, sem retumbancia,

Da muti-millenaria dissonancia

Que as harmonias sideraes invade...

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Era, numa alta acclamação, sem gritos,

O regresso dos átomos afflictos

Ao descanso perpetuo da Unidade!

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Para Augusto dos Anjos, o encontro com a Unidade prende-se ao monadismo, ao desejo de encontrar a unidade perdida.

Também revelando a alta literariedade de sua obra e sua incontestável inspiração de artista, transcreemos "O lamento das coisas ":

Triste a escutar, pancada por pancada,

A successividade dos segundos,

Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,

O chôro da Energia abandonada!

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É a dor da Força desaproveitada,

- O cantochão dos dynamos profundos,

Que, podendo mover milhões de mundos,

Jazem ainda na estática do Nada!

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É o soluço da fórma ainda imprecisa ...

Da transcendência que se não realisa...

Da luz que não chegou a ser lampejo...

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E é, em suma, o sub-consciente ai formidando

Da Natureza que parou, chorando,

No rudimentarismo do Desejo!

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Pensamos que o poeta foi um paragnosta que, hoje, poderia ser tratado e estudado pela Parapsicologia. Entretanto, nasceu na Paraíba no ano de 1884...


No blog nº8, Dialogismo, dialogamos com o"Bhagavad Gita",livro sagrado do hinduísmo, com Pitágoras, Heráclito, com o mito de Adão e Eva na Bíblia, para refletirmos sobre a unidade e a multiplicidade. Leia-o. Mostramos nossa contigência em buscar o entrelaçamento de unidade e multiplicidade . Apresentamos a mesma busca no blog anterior a este, nº 28. Discursos diferentes, atitudes diferentes para, em essência, expressarem uma só verdade.

Francis Bacon(1561-1626), considerado o Aristóteles da Idade Moderna, afirmou que:

A poesia dramática é a que melhor pode retratar as paixões humanas com finalidade educativa, ao colocar em cena não só indivíduos mas também conceitoa gerais abstratos.






quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Nº 28: Unidade, multiplicidade, unidade


Estivemos relendo os blogs já publicados e fazendo outras pesquisas para os próximos, por isso, atrasamos um pouco com este número e, de acordo com nossa seleção, resolvemos o seguinte:
Voltamos à temática da Prosperidade, lançando um poema da autoria de Anna, "Sintaxe do pronome meu", que sempre causa uma grande polêmica.




Não tenho terras


Não tenho árvores


Não tenho casas


Não tenho cama


Não tenho livros


Não tenho família


Não tenho computador


Não tenho celular


Não tenho roupa


Não tenho pão


Não tenho ninguém


Nem sequer um copo d'água


Nem a luz da imaginação




Tudo é dádiva de Deus


que retenho por enquanto


no encanto do momento e do entretanto,


pertence a toda a humanidade.


Esta é a Lei: não existe propriedade.


Mas existe prosperidade.




Não me importo se a rima não agrade.


Quando dizemos "meu",


prendemos o alheio numa grade.




Melhor que suar para competir


é harmoniosamente soar para construir.




Não tenho flores


só tenho amores


só tenho amores.




Sou filha do Universo


e o Universo toma conta de mim.




Será que estamos desprezando o individual? Em absoluto, não estamos. Mas, não podemos esquecer a incalculável influência do coletivo.


Yung foi o primeiro que falou sobre o inconsciente coletivo e deu o nome de self (si mesmo) à totalidade da psique e não apenas a um centro profundo. O confronto entre o consciente e o inconsciente produz um alargamento do mundo interior, do qual resulta que o centro da personalidade, construída por um longo labor, não coincida com o ego. O homem torna-se ele mesmo, um ser completo, composto de consciente e inconsciente, incluindo aspectos claros e escuros, masculinos e femininos, seu mundo abraça valores mais vastos, absorvidos principalmente do imenso patrimônio que a espécie penosamente acumulou em estruturas fundamentais.


O desenvolvimento da personalidade progride em direção a um centro, um núcleo energético que se revela existente no fundo mais íntimo da psique. É um estudo muito complexo e inesgotável. Por ora, só queremos esclarecer que no self podemos também reconhecer nossa própria sombra.


Penetra-se, assim, num reino tão perigoso quanto as profundezas do oceano, pois aí moram, como afirmamos, aspectos sombrios de nossa personalidade, por exemplo, o medo, a raiva, a ansiedade, a violência. Para combatê-los, o caminho mais aconselhado é a religião. A religião, porém, não consegue derrotar a sombra, muitas vezes, a torna mais poderosa. Para se combater o Mal, lembre-se, tem que se desenvolver a ideia e os procedimentos que nos levam ao Bem. Temos que jogar luz em cima das trevas, colocar em prática nosso potencial divino, tornar nossa consciência iluminada, em cuja presença toda escuridão automaticamente desaparece.


O self é o eu real, ele está além do Bem e do Mal. A sombra perde o poder quando a consciência para de se dividir. É bem verdade que temos de formar nosso self individual, com necessidades, impulsos, tendências, desejos, sonhos e temores que nos são especiais mas que não nos separam do mundo. A noção que criamos nossos selfs isolados, separados, é uma ilusão. Sempre penetramos um vasto reservatório humano de aspirações, sentimentos, mitos. Repetimos: esta inconsciência compartilhada é onde reside a sombra, que só será má, se não soubermos tratá-la. Compartilhar com todo o mundo é fundamental para nossa sobrevivência. Sabe-se de sobra que nenhum homem é uma ilha, ele pode sempre declamar a "Sintaxe do pronome meu".


Podemos notar a presença de nosso self coletivo em diversas oportunidades. Por exemplo, quando nos identificamos com nossa nacionalidade, quando um desastre cometido em lugares e com pessoas que não conhecemos, nos afeta pessoalmente, quando nos oferecemos como voluntários numa comunidade, quando entramos num partido político, quando pedimos apoio da família e amigos etc.


O poeta Mário Quintana nos ajuda e entender o exposto neste blog, com a seguinte afirmativa:


"Olho em redor do bar onde escrevo estas linhas. Aquele homem ali no balcão, caninha, após caninha. Nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando os ploblemas dele, João da Silva. Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo."


O inconsciente é nosso destino, dele não podemos livrar-nos. Temos o direito de escolher, mas o inconsciente é que nos faz escolher. E não se anula o consciente, que nos permite o livre arbítrio para vivermos o que foi escolhido da melhor maneira.


Temos que decidir ser múltiplos, sem perder nossa unidade com o Todo, de onde viemos. A individualização é dramática. Corremos o risco de nos perdermos na prostiruição da aparência.


Gerd A. Bornheim em O sentido e a máscara. São Paulo: Perspectiva, 1975, p.77, cita um pensador pré-socrático, Anaximandro: "Todas as coisas se dissipam onde tiveram sua gênese, conforme a culpabilidade; pois pagam umas às outras castigo e expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo." Explicando-se diz que Anaximandro nos apresenta a multiplicidade de uma forma altamente dramática, como culpa e injustiça. A isenção da culpa e da injustiça se faz através da reintegração na unidade, que resolve em si o múltiplo.


O mesmo teórico continua na p. 78 do mesmo livro citado: "Para os pré-socráticos, unidade e multiplicidade são formas de ser, e o ser é a 'physis', a natureza. A 'physis' estendo-se ao todo do real, permite compreender unidade e multiplicidade, pois ambas são interiores à natureza. Vale dizer que a 'physis' está presente em tudo o que é, se manifesta no real, mas de diversas maneiras . E o modo de ser da multiplicidade, na medida em que se afirma como tal e não reconhece a unidade no ser, faz com que troque o ser pela aparência do ser. No fragmento 112, Heráclito diz que a sabedoria consiste em 'agir conforme a natureza, ouvindo a sua voz.' A recusa em ouvir a voz da 'physis' ou a teimosia da multiplicidade que se afirma como independente e se recusa a confessar a unidade de todas as coisas , é o princípio do pseudos, do erro gerador de culpa e injustiça (Heráclito,fr. 50). Nesse sentido é que a aparência deve voltar a integrar-se no ser . A compreensão da sabedoria como um saber escutar a voz do ser é patrimônio comum da filosofia pré-socrática. "


No próximo jornal, apresentaremos alguns poemas de Augusto dos Anjos, autor que ao visualizar a unidade se excita exageradamente, não sabendo entrosá-la com a multiplicidade, tornando-se trágico. as asas são de cera e se derretem como as de Ícaro.