sábado, 30 de março de 2013

Nº 39 Continuação da Meditação Mística


       Monsieur computador não nos deixou continuar a postagem nº 38.  Seja feita sua vontade.
     Vamos continuar o estudo nesta postagem que segue.
     A "meditação mística" nos proporciona uma autêntica satisfação, muito diferente daquelas que as enganosas propagandas comerciais nos oferecem. Tenham espírito crítico! Não vão meditar pensando em alcançar o "prazer" que lhes dão os shops.
      As postagens nº 30,31,32,33 e 34 se dedicam especialmente à "doce canção do consumismo" por isso podemos remeter nossos leitores a elas e, agora, para não fugirmos muito a nossos objetivos, apenas citaremos um fato que serve de base a muitos outros. Trata-se da propaganda do supermercado Pão de Açúcar que se anuncia como o "Lugar de gente feliz" Dá um longo texto imitando a poesia e a filosofia, para muito sutilmente encaminhar você para ir fazer compras no Pão de Açúcar e encontrar lá a desejada felicidade... A "meditação mística"  é muito diferente!Você só pode realizá-la se conseguir esquecer os olimpianos e as mercadorias desnecessários que vivem perturbando-nos.
          Ela é holística, atinge o Todo. Por exemplo, se estamos relaxando perto de uma janela, donde se contempla a Lua, temos que reconhecer que esta é nossa irmã, uma criação de Deus como nós. Eu sou a Lua, a Lua sou eu. Deus está em tudo e tudo está em Deus e ele existe acima de tudo. Aí está a importância inexcedível da "meditação mística".
           Seu efeito mais profundo é transformar nosso estado de consciência, é alcançar a consciência cósmica que nos permite transcender, não somente o tempo e o espaço, mas também o Eu objetivo. Essa forma de consciência ultrapassa o âmbito limitado das faculdades puramente cerebrais, o que redunda dizer que tem sua fonte num princípio superior, a Alma Universal.
           Temos da alma uma noção abstrata, de modo que é impossível provar concretamente sua existência. Mas  existem certos critérios que permitem evidenciar sua presença no ser humano. Por exemplo:
            O ser humano é capaz de sonhar e estudar a realidade dos sonhos,
                                                    de se desdobrar, isto é, de se projetar psiquicamente,
                                                      de se interiorizar,
                                                       de se aperfeiçoar,
                                                       de se sublimar.
             É importante saber que a alma é dual , no sentido de que todo ser humano possui ao mesmo tempo uma alma divina, perfeita proveniente da Alma Universal e um personalidade-alma imperfeita gerada por cada indivíduo quando de sua primeira encarnação no reino humano. Na realidade é esta que evolui de vida em vida, sob a impulsão da alma divina nele presente. Isto supõe que essas duas almas se interpenetram durante a encarnação e podem fundir-se numa só. Se há esta fusão, alcançamos a harmonização cósmica, equivalente à pedra filosofal dos alquimistas, pois transformamos o chumbo da terra no ouro do céu .
            Entretanto, você não atingirá o ouro do céu se não for um filósofo acadêmico ou  prático, se não souber perceber o UM que tudo une, se você não amar a sabedoria.
            Continuaremos na mesma temática na próxima postagem.

terça-feira, 26 de março de 2013

Nº. 38 - MEDITAÇÃO MÍSTICA

         
          Definir é perigoso e difícil. Mas, inicialmente, vamos definir certos nomes que serão empregados e explicar certos conceitos básicos para melhor aproveitamento destas postagens.

          VIDA é a auto-organização, a automanutenção e, no homem, a autotranscendência. Esta inclui a evolução e a criatividade. Na ordem natural da evolução está: o vegetal, o animal, o homem. Somos o Rei da Criação... Será? Dizendo melhor, vida é a expressão da energia divina na manifestação que o homem chama de vida.   Quem insufla a energia e a mantém é Deus. Tudo tem vida, os elétrons se conectam e são uma possibilidade. Quando dissermos "vida"  não estaremos referindo ao fato de apenas existir, evocamos igualmente a vida imortal, a vida eterna, a vida da alma.
       
          Que é a alma? Ela não pode ser apreendida  com simples palavras nem com o estudo da Psicologia mais avançada. Atinjo o mundo exterior por intermédio do corpo, por exemplo, se contemplo um céu noturno estrelado. É através da alma que atinjo o mundo interior. A alma é o sopro de Deus que dá vida ao corpo, se relaciona com a essência de Deus. Jung diz que a alma, em termos psicológicos, é o arquétipo da imagem de Deus.É indispensável ler Jung em Memórias, Sonhos, Reflexões etc. Também ajuda a entender o mesmo assunto, de um modo mais acessível, Viktor Frankl em A presença ignorada de Deus, onde mostra que há no ser humano uma religiosidade e relação com Deus a nível inconsciente. Somos alma e corpo, a alma é imortal, o corpo morre.

          CONSCIÊNCIA é basicamente a percepção, conforme a maior ou menor manifestação da consciência  de Deus. Assim  sendo, entendemos a consciência como um fenômeno que transcende nossa mera condição humana e, portanto, a nós mesmos, a nossa existência. Dividimo-la em : objetiva, subjetiva, subconsciente e cósmica. A última aberta ao Universo e que é o alvo principal da meditação mística.

          MÍSTICO é um termo muito semelhante a esotérico. Especificando, este designa um conhecimento especial que é reservado, restrito a um grupo de pessoas que se mostraram merecedoras de recebê-lo, que passaram por um processo iniciático.   Trata-se de uma abordagem profunda, não se restringe à esfera puramente intelectual, exigindo uma preparação interior para ser apreendida em todo o seu alcance. Busca estimular e despertar as potencialidades latentes e psíquicas que jazem em todo indivíduo e que, uma vez acordadas,proporcionam realizações excelentes e inimagináveis. Místico tem o sentido mais amplo, não se refere a um determinado grupo, para chegar a ele seria bom passar antes pelo esotérico. O termo místico tem-se degradado e recebido uma conotação de prática fanática de natureza religiosa, de crença arbitrária, primária e mesmo supersticiosa em forças e seres sobrenaturais etc. Para nós, místico se relaciona profundamente com a Verdade do Universo e da vida. A meditação mística nos dará chave para a saúde, inspiração, poder e felicidade.
         
          A meditação mística tem uma importância inexcedível.  Ela lhe dará uma autêntica satisfação.  O principal dela é levar a pessoa além da mente pensante, além dos conflitos.  Hoje quase todos sabem meditar, como uma forma de relaxamento ou liberação do estresse ou para se atingir o silêncio.  Todas estas alternativas objetivam muito pouco em relação ao que chamamos de "meditação mística".  Sobre ela continuaremos esclarecendo na próxima postagem.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Nº 37 Poemas para pensar

                                       Mas...

                               Antônio Roberto Fernandes

                                      E eu que achei que a lua não brilhasse
                                      sobre os mortos no campo da guerrilha
                                      sobre a relva que encobre a armadilha
                                      ou sobre o esconderijo da quadrilha,
                                      mas brilha.

E achei que nenhum pássaro cantasse
se um lavrador não mais colhe o que planta,
se uma família vai dormir sem janta
com um soluço preso na garganta,
mas canta.

                                     Também pensei que a chuva não regasse
                                      a folha cujo leite queima e cega,
                                     a carnívora flor que o inseto pega
                                     ou o espinho oculto na macega,
                                      mas rega.

Pensei também que o orvalho não beijasse
a venenosa cobra que rasteja
no silêncio da noite sertaneja
sobre as ruínas da esquecida igreja,
mas beija.


                                        Imaginei que a água não lavasse
                                        o chicote que em sangue se deprava
                                        quando, de forma monstruosa e brava,
                                        abre trilhas de dor na pele escrava,
                                        mas lava.

Apostei que nenhuma borboleta
- por ser um vivo exemplo de esperança-
dançaria contente, leve e mansa
sobre o túmulo em flor de uma criança,
mas dança.

                                         Por isso achei que eu não mais fizesse
                                         poema algum após tanto embaraço,
                                         tanta decepção, tanto cansaço
                                         e tanta espera, em vão, por teu abraço
                                         mas faço.

     Versos simples e expressivos que nos trazem uma provocação filosófica e teológica.
      Onde está Deus, fonte de bondade e justiça, que não interfere nos acontecimentos narrados? Ele é indiferente aos seres humanos? É um mistério...

      "A mais bela e profunda emoção que podemos viver é a sensação de mistério. é ela a fonte de toda verdadeira ciência. Aquele que não conhece essa emoção, que não pode se maravilhar e sentir-se pasmo de admiração, está praticamente morto. O sabermos que aquilo que é impenetrável para nós realmene existe, manifestando-se como a mais sublime sabedoria e a mais radiante beleza, que nossas débeis faculdades podem apreender somente em suas formas primitivas, este conhecimento, este sentimento é a essência da verdadeira experiência." Albert Einstein

     Preside aos fatos do poema "Mas..." uma força atemporal, anespacial, não causal, imotivada, indivisível, que não tem direção ativa, pura e que mesmo assim é responsável por tudo que se manifesta  no mundo numênico e no fenomênico, no perpétuo movimento da vida e da morte.
     Schopenhauer a chamaria de Vontade. Diz ele que o simples ato de levantar um braço é um ato de Vontade. Está no mundo numênico e no fenomênico. Do numênico vem a ordem, a execução da ordem inscreve-se no fenomênico.
    "E achei que nenhum pássaro cantasse.. mas canta." Mas, mas etc. Dizemos nós: as leis cósmicas se cumprem. Se são más ou boas, é um julgamento do homem. Não existe o bem e o mal, fora de nossa cabeça. Nós é que criamos o "bem e o mal". O bem é a presença de Deus, o mal é a ausência de Deus. E muitas vezes não sabemos distinguir o que é um ou outro.
    Para continuar este assunto, vamos transcrever o poema "Bolas de aniversário" de Nando, escrito por ele quando completou 60 anos, no ano de 2012.

Uma festa de felicidade
Recebi diversas caixas de presente.
Um lindo bolo e as bolas de aniversário.
Tudo doce.
Quanto glacê!

                                                                    As bolas que brilham
                                                                    Cheias de ar
                                                                    São de beleza efêmera.
                                                                    Explodem!
                                                                    Provam que o tempo
                                                                    É implacável.

     As leis cósmicas se cumprem. O ser vivo nasce e tem que morrer. É inexorável! O tempo não perdoa.
     É preciso saber viver para não ficar num "Circuito fechado". Ainda é Nando que escreveu uma crônica com este título e a dedicou a Samuel Becket.

     Ato I, parágrafo único

    Manhã - roleta no número de gravata, onde às vezes, o cinema rebolava um sábado.
    Na noite com luz, ainda havia o cigarro.
    Dentro do ônibus um homem trocava ruas e mesmo com a trepidação apertada, conseguia ver no jornal em alta velocidade: cachorro-quente embrulhado no jornal de ontem. Talvez já frio.
    Então desistiu, disse que a avenida não era de guarda-chuva, e foi aí que procurou a caixa de fósforos.
    Todo dia andava sem  caixa de fósforos; nu, nu como se estivesse sem caixa de fósforos.
    Cai o pano. E um tremendo cheiro de esgoto na plateia cheia, onde ninguém aplaudiu nem vaiou.

    É esta a crônica, um pouco ilegível e muito literária. Muito metafórica. Este é o mundo de quem está "preso na caverna" !
    E Nando vai dizer que a "Liberdade" é possível. Vejam:

Aterrissei num mundo tatuado de nomes,
As cabeças cheias de preconceitos.
O sistema burocrático, os tabus em ação.
O gordo deveria emagrecer,
Os fracos obedecerem,
Os ricos ficarem cada vez mais ricos.
Liberdade só fora do verbal e do racional.
Me ergui desnudo e livre
Buscando a liberdade dentro de mim.
Sou livre.

    Não vamos dar a receita. Que cada um procure seu caminho. Vamos apenas comentar um pouco. Não dependemos só do destino, nossas escolhas também funcionam. Funciona o livre arbítrio.
    As reflexões filosóficas nos ajudam. Assim, é bom pensar e sentir que Deus é a causa de tudo; tudo que existe, existe em Deus, como disse Bento de Espinosa (1632-1677), filósofo da Renascença. Sua teoria é explicada na Ética. É frequentemente classificada como panteísta, a crença que Deus é o mundo, a natureza e que o mundo é Deus, mas que Deus é mais que o mundo.
    Ele é a causa de tudo que existe, no entanto, não é uma causa transitória, algo externo que traz o mundo à existência. Deus é a causa imanente do mundo, isto significa que a existência e a essência do mundo são explicadas pela existência e essência de Deus. É bom estudar as teorias de Espinosa e outras para não explicar tudo com a frase comodista: "Foi Deus que quis".
    Agora, falamos nós, Anna e Nando:

    Não antropomorfizar Deus!
    Quando estivermos em desarmonia, quando o circuito estiver fechado pelo desinteresse, pela apatia, pela angústia ou por outras causas, temos que nos tratar metafisicamente com o que está dentro de nós. Diz o eu-lírico de "Liberdade" - "Me ergui desnudo e livre / Buscando a liberdade dentro de mim. Sou livre." O que nos liberta para o Bem é o Divino que está em nós, o Mestre Interior, o Eu Espiritual, o Self, o Cósmico. Temos que ter a consciência e a compreensão da imensidão e do poder de Deus, mas também a percepção mais íntima e maravilhosa de "Deus Presente" direta e pessoalmente em nosso próprio ser. A nossa união com Deus, com o Todo torna-se uma experiência.Podemos exclamar: Estamos no Ser Cósmico. Estamos em Deus.
     Temos que atingir o panenteísmo - compreender e sentir que Deus está em tudo. No momento em que Deus está em nós e que estamos em Deus, não adoecemos, não temos depressão e nem estamos em pecado. Estamos livres no bom sentido. O "mal" não existe, diante da Onipotência, ele se torna impotente.
     Precisamos sempre de uma ajuda: uma terapia, uma sociedade iniciática e outras.
    Nascemos para evoluir, para nos completar. Somos seres "en defaut", estamos nos fazendo. "Não nascemos prontos!" como diz Mário Sérgio Cortella no seu livro que tem este título. Na Internet: www.vozes.com.br. Que seja nosso livro decabeceira.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Nº 36 Uma visão negativa. Rumo a Schopenhauer. Continuação

      Mudando a perspectiva, continuamos focalizando Schopenhauer. Ele nos ensina que entre os homens, surgiu com a razão, por uma conexão necessária, a certeza terrível da morte.Este é o maior pavor da humanidade que o carrega durante toda sua vida. Também aí, Schopenhauer, baseando-se no budismo e no bramanismo, nos dá uma honesta terapia para vencer este medo patológico. Na obra O mundo com Vontade e representação, encontra-se no "Suplemento ao livro quarto", capítulp XLI, o texto "Da morte e sua relação com a indestrutibilidade de nosso ser em si". Vamos citar  alguns pontos que consideramos básicos para ajudar os leitores que não leriam a complicada e longa teoria de Schopenhauer. Aliás, complicadas e longas são todas as obras filosóficas consagradas.

     Se o que faz a morte nos parecer tão assustadora fosse a ideia do não-ser, então deveríamos experimentar o mesmo temor diante do tempo em que ainda não éramos. É inconstetável que nós é que tornamos o não-ser depois da morte diferente daquele  anterior ao nascimento. Então, o primeiro que citamos não merece ser tão lamentado. Toda uma infinidade de tempo fluiu quando ainda não éramos, mas isso não nos aflige de modo algum. É desse ponto de vista que Epicuro examinou a morte e assim tinha toda a razão em dizer "que a morte não nos concerne", pois disse ele que "quando somos, a morte não é, e quando a morte é, não somos mais." (Diógenes Laércio). A perda de algo que não podemos constatar a ausência não é nenhum mal: quem poderá negar? Assim o tornar-se não-ser não poderia nos afetar, da mema forma que o não-ter-sido.

     Teremos sempre noção falsa sobre a indestrutibilidade  de nosso ser verdadeiro pela morte, enquanto não nos decidirmos a abandonar os ensinamentos da religião cristã que recebemsos e a começar a estudar tal característica nos animais. Basta que se entranhe seriamente e de boa vontade  no exame desses vertebrados superiores, para que se perceba claramente que é impossível que esse ser insondável, tal como existe, considerado no seu todo, se reduza a nada; não obstante, por outro lado, conhece-se sua transitoriedade. Também a observação empírica do gênero humano nos leva a entender que todas as qualidades distintivas dos pais se reencontram na criança procriada e que assim superaram a morte. A criança continua a sua espécie. Evidencia-se a Vontade de vida, a força da espécie. Abrimos uns parênteses para dizer que a mema importância à espécie dos seres vivos, Schopenhauer dá no capítulo "Metafísica do
 amor". Muito bom! Deixamos a recomendação que o leiam.

     Se apanharmos um botão, o pendurarmos num fio de linha e lhe dermos um movimento giratório rápido, o botão desaparece, só percebemos um círculo. Assim é a espécie, a realidade existente e permanente, a morte e o nascimento são como vibrações.

     A existência de teu ser, depois da destruição do teu corpo, te parece impossível e inconcebível, mas ela é tão impossível e inconcebível como tua existência atual e como chegaste a ela. Estas considerações são apropriadas para despertar a convicção de que em nós há alguma coisa que a morte não pode destruir. O único meio de obtermos este resultado é o nos elevarmos a um ponto de vista do qual o nascimento não é o começo de nossa existência. Essa parte de nós indestrutível pela morte não é propriamente o indivíduo surgido pela procriação e trazendo em si qualidades do pai e da mãe. O indivíduo se apresenta ademais como uma simples diferença da espécie e, como tal, só pode ser finito. Consequentemente, assim como o indivíduo não guarda nenhuma recordação de sua existência antes do nascimento, do mesmo modo, ele não pode, depois da morte, conservar nenhuma lembrança de sua vida atual. Será? Perguntamos.

     A consciência é a vida do sujeito cognoscente e a morte é seu fim. A consciência é finita, sempre nova, sempre pronta a recomeçar, a renascer. Somente a Vontade permanece, pois ela é a Vontade de vida, uma força que apenas quer existir, se evidenciar num mundo que não passa de uma representação.

     Nota-se nesta postagem e na anterior que a filosofia pessimista atribuída ao filósofo polonês talvez não passe de um preconceito ou um mal entendido, quando analisado com outros olhos e comparada à mensagem de outros homens excelsos da humanidade, como Platão, Nietzsche, Buda, Jesus. Acontece que ele foi honesto em sua filosofia. Não sabemos bem se nele há pessimismo ou puro realismo. É importante reler, por exemplo, o último parágrafo da postagem nº 35 para evidenciar um legado positivo de sua filosofia.

     É pena que a lição de altruísmo e a que ele vaticina para todos uma espécie de eterno retorno, um retorno ao nada existencial ou seja ao nirvana, pela contemplação estética, não tenha a repercussão necessária, pois ele não teve a merecida  aceitação. E quanto  à ideia de alcançar o nirvana, aproveitamos para esclarecer que não só a contemplação estética é um caminho, mas que há outros que também podem ser usados como sejam a meditação holística, o êxtase que se sente numa paisagem de primavera no Brasil etc.

    Mas como legados positivos e duradouros de sua obra, citamos:
O conceito de Vontade passou a ser conhecido na Filosofia.
Sofreram, por exemplo, sua influência: Nietzsche, Henri Bergson e os pragmáticos norte-americanos.
No campo da Psicologia, suas ideias sobre desejos e frustração influenciaram as teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e Carl Jung.

    Com estas reflexões de Schopenhauer, vamos nos aproximando da Verdade, nem por isso podemos deixar de contestá-las e de reconhecer que não são imutáveis.

    Com pesar, temos de mudar nosso instrumento de exposição, que consideramos indispensável, o que faremos na outra postagem.

    No final de nosso debate, lembramos que o gigantesco progesso tecnológico que alcançamos nos dá conforto, alivia os males de certas doenças, nos aperfeiçoa, mas talvez  tenha trazido mais sofrimento, tenha causado ambição, depressão, assassinatos, roubos, violência, mais o negativo que  o positivo. Não contribui para eliminar o sofrimento do mundo. Estamos no caminho errado. Falta o humano, o criativo, o espiritual.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Nº 35 Uma visão negativa. Rumo a Schopenhauer

          
           Desculpem o longo recesso. Estivemos trabalhando numa peça de teatro e numa exposição de nossos trabalhos artísticos: pintura, fotografia e literatura.  Além disso, a “misteriosa” Internet primeiro sumiu de nosso computador, depois, não fornecia o painel do blog para escrevermos.  Tentamos, perdemos tempo e gastamos  com técnicos de Informática até conseguirmos.

       A partir do blog nº 30, vínhamos dando a nossos textos um enfoque eminentemente sócio-político, passaremos agora, sem perder, a coerência a um enfoque mais metafísico, mais especulativo que científico.  Nele aparentemente estamos nos afastando do prometido epicurismo moderno. Mas para alcançar uma vida feliz temos de constatar  para contestar a vida da maior parte dos homens  e mulheres, destituída de significação e interesse, estudando suas causas.  Hoje, achamos que as maiores causas que podemos observar estão na vedetização, na reificação (coisificação), na manipulação do homem pelo consumismo desabalado e exagerado, incentivado por propagandas insinuantes e mentirosas que procuram manter o poder do governo capitalista que, apesar da mudança brutal  para melhor que houve no Brasil com o governo de Lula e de Dilma Roussef, ainda vigora.  A mídia com seus programas principalmente de televisão e de Internet e também os Shoppings-Centers, nossas atuais catedrais, são os principais instrumentos para a manutenção desta situação.  Estamos construindo super-homens e super-mulheres virtuais e infantilizados. Não sabemos onde fica seu caráter e sua espiritualidade.

          Em seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, nosso imensuravelmente grande Machado de Assis, no último capítulo nos avisa com ironia que falhou a invenção do "emplasto Brás Cubas", a inspiração que veio do céu e curaria nossos males.  Sendo assim, nos tornamos eternamente hipocondríacos.  Neste capítulo, intitulado "Das negativas", o personagem nos diz: "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento.".  Teve na vida também fatos positivos que se equilibraram com os negativos.  Mas um saldo a seu favor, que é a derradeira negativa: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.".

           Disse Brás Cubas "o legado de nossa miséria".  Agora, já não somos miseráveis homens e sim nos anulamos, como disse nosso poeta Carlos Drummond de Andrade em "Eu, etiqueta", transcrito na última postagem (nº 34).  Citamos alguns versos:

 "Já não me convém o título de homem.
Meu nome é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente."

            Entretanto, há filósofos ou artistas-filósofos, como Drummond e Machado e outros poucos homens e mulheres que nos guiam, pois conseguem sair da "caverna" e fixar a luz do lado de fora.  Embora não sejam muitas vezes citados como filósofos, têm a sabedoria da filosofia.

            A filosofia não é apenas atividade de pensadores brilhantes, porém excêntricos, como popularmente se pensa.  Filosofia é o que todos fazemos quando estamos livres de nossas atividades cotidianas e temos uma chance de nos perguntar o que é a vida e o Universo. 

          Chegar às respostas para as questões fundamentais é menos determinante para a Filosofia do que o próprio processo de busca dessas respostas pelo uso da razão, em vez de aceitar sem questionamentos as visões convencionais ou a autoridade tradicional.  Os primeiros filósofos, nas antiguidades grega e chinesa, foram pensadores que, insatisfeitos com as explicações usuais fornecidas pela religião e pelos costumes, procuram respostas embasadas em justificações racionais.  E assim como compartilhamos nossas observações com amigos e colegas, eles discutiram ideias entre si e fundaram "escolas" para ensinar não apenas conclusões a que chegaram, mas a maneira como chegaram até elas.  Eles encorajaram os alunos a discordar e a criticar ideias, como meio de refiná-las e de alcançar visões novas e diferentes. 

             Platão nos ensinou: "Questionar é o atributo de um filósofo porque não há outro início para a filosofia além desse.".  Seu mestre, Sócrates, é o maior exemplo que temos em praticar o debate e o diálogo.  Orgulhava-se de ser o mais sábio entre os homens porque sabia que nada sabia.  Quando percorria o centro comercial de Atenas, dizia aos vendedores que o assediavam: "Estou apenas observando quanta coisa existe e que não preciso para ser feliz!". 

          É a filosofia que nos dá o verdadeiro prazer de viver.  Acima de tudo, temos a satisfação de chegar a crenças e ideias por meio de nosso próprio raciocínio e não por imposição da sociedade, da religião, da escola ou dos filósofos consagrados.  A ignorância deixa o mundo em chamas, a filosofia é que as extingue.

          O início do pensamento filosófico está no desacordo, na dúvida, não apenas com os outros, mas também conosco.  Não há certezas inabaláveis.

           Aproveitando o gancho da visão negativa como indica o título da postagem, consultaremos Schopenhauer (1788-1860), filósofo polonês. 

            Na obra Parerga e Paralipomena (1851), uma glosa e comentários da obra que o imortalizou, O mundo como Vontade e representação, no capítulo XII escreve o texto "Contribuições à doutrina do sofrimento do mundo".  E como contribuiu!  Não percam, leiam Schopenhauer em Schopenhauer!  Magnífico!

            Vivia isolado neste mundo para ele, repleto de males e de homens maus.  Parece-nos que teria concordado com Brás Cubas: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.", pois era misógino e misantropo.  Machado de Assis, o criador de Brás Cubas, como Schopenhauer, também não teve filhos.  Machado, porém, casou-se e não vivia isolado como Schopenhauer.

             Este  achava que a felicidade não é senão um momento fugaz da ausência da infelicidade.  Vem daí a perspectiva de seu pensamento caracterizado como pessimista: "É uma verdade incrível como a existência da maior parte dos homens é insignificante destituída de interesse, vista exteriormente, e como é surda e obscura sentida interiormente.  Consta apenas de tormentos, aspirações impossíveis; é o andar cambaleante de um homem que sonha através das quatro épocas da vida, até a morte, com um cortejo de pensamentos triviais.  Os homens assemelham-se a relógios que se dá corda e trabalham sem saber a razão.".  Também a obra de Machado comprova muitas vezes esta citação.

            Mas não vamos imobilizar a filosofia de Schopenhauer nem a obra de Machado na classificação de pessimista.  Queremos comentar um pouco mais sobre Schopenhauer.  Faremos reflexões indispensáveis, alcance da maioria, preservando o "gostoso" de se filosofar.

            O mundo como Vontade e representação, como já dissemos, é a grande obra de Arthur Schopenhauer, publicada pela primeira vez em 1818 e pela segunda em 1844.  "O mundo é a minha representação" são as palavras como ele inicia sua principal obra filosófica.  A tese básica de sua concepção é a de que o mundo só é dado à percepção como representação.  Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo.  Carlos Drummond de Andrade dirá no século XX: "O mundo é só um ponto de vista.".

            A Crítica da razão pura de Immanuel Kant, publicada em 1781, introduziu o conceito de "coisa em si", que Schopenhauer usa como ponto de partida para suas ideias.  Kant dividiu a realidade do mundo em fenomênica, que parte de nossas percepções e da "coisa em si" (a essência íntima das coisas).  Esta é instransponível para a razão humana, segundo Kant, portanto, além do nosso alcance.  Para Schopenhauer, embora essa essência íntima das coisas (mundo numênico) esteja encoberta pela representação e seja impermeável ao entendimento, ela é, no entanto, apreendida pela intuição.

            A ideia do conhecimento limitado à experiência não era inédita.  O filósofo pré-socrático Empédocles, tinha dito que "cada homem acredita apenas em sua experiência".  No século XVII, John Locke afirmou que "nenhum conhecimento do homem pode ir além de sua experiência".  Aristóteles (384-322 A.C.) disse que "nada chega ao intelecto, antes de passar pelos sentidos".  Protágoras (481-411 A.C.), um sofista, é o autor da famosa frase "O homem é a medida de todas as coisas.".

            Schopenhauer, além disso, nos dá conceito de Vontade que vai numa significação muito maior que aquela que na linguagem corrente empregamos esta palavra.  Trata-se de uma Vontade universal para representar uma energia pura que não tem direção ativa e mesmo assim é responsável por tudo o que se manifesta não só no mundo numênico mas também no mundo fenomênico: no instinto sexual, no crescimento das plantas, nas pedras, enfim no perpétuo movimento da vida e da morte.  A Vontade do mundo não indica o tempo, nem segue leis espaciais ou causais.  ela deve ser atemporal e indivisível e da mesma forma devem ser nossas vontades individuais.  Segue, então, que a Vontade do Universo e a vontade individual são uma única coisa e o mundo fenomênico está sobre o controle dessa Vontade vasta e imotivada.

             Ele estudou, em detalhes, pensadores e religiões orientais.  No Bhagavad Gita, hindu, viu que Krishna, o cocheiro diz à Arjuna que o homem é escravo de seus desejos, a menos que consiga se libertar deles.  Para Schopenhauer, o mundo não é bom nem ruim, mas sem significado, e os homens que lutam para encontrar a felicidade alcançam na melhor das hipóteses a satisfação de um desejo que abrirá a porta para outros desejos - e na pior, dor e sofrimento.  Ele acredita na reencarnação, que para aqui viemos a fim de expiar nossas faltas.

             A única saída dessa condição miserável, de acordo com Schopenhauer, é a não existência ou, pelo menos, uma privação da vontade de satisfação.  Propõe que o alívio pode ser buscado por meio da contemplação estética, especialmente da música, a arte que pode libertar-se da representação do mundo fenomênico.  Aqui, a filosofia de Schopenhauer ecoa o conceito budista do nirvana (estado transcendental, livre do desejo e da dor).  Novamente reflete a filosofia oriental quando ensina que as vontades individuais e a do Universo são uma única coisa e diz que, por isso, podemos descobrir uma empatia com o mundo e tudo mais.  Nascendo o altruísmo que passa a compaixão, desaparecendo o egoísmo.  Aí está um legado seu que é otimista.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Nº 34 Avaliação dos textos sobre o consumismo


A senda de nossa vida é mutante e flexível, não há receitas, segui-la é abraçar  um processo probalístico e não fatalístico.

Com muita meditação, muita inspiração e transpiração, conseguiremos abrir, a cada novo instante, novos caminhos para nossa evolução maior.  Atingiremos um sábio discernimento, para atuarmos na sociedade técnico-burocrática de consumismo dirigido que é a nossa.

Apenas desejamos oferecer 03 tópicos para nossa reflexão:

1 - Será certo empregar o tempo precioso de nossa vida nos movimentando dentro deste círculo infernal?














2 - Os poetas são as antenas da humanidade.  Que lhe diz o seguinte poema de Carlos Drummond de Andrade?  Observe seu tom mordaz, próprio do estilo pós-modernista.


Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu corpo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
da sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê-la - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou subordo algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco de roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costura, sou tecido,
sou gravado de forma universal
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como sígno de outros
objetos estéticos, tarifados.
Por me ostentar assim tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.


3 - Em que podemos relacionar o seguinte ensinamento com as postagens referidas deste Blog: 30, 31, 32 e 33?

A Iluminação Cósmica proporciona ao indivíduo o conhecimento de todas as coisas, pois sua fonte é a própria Consciência de Deus.

Na busca amorosa do Bem, às vezes, existe a dolorosa sensação de queda e privação, mas sem este amor a lei centrífuga nos dominaria completamente e baniria nossa alma para longe de sua fonte, às extremidades insensíveis do material e da multiplicidade.  Com este amor, o sábio reconhece a ideia do Bem em seu próprio interior, expandido seu ser para cima, rumo à fonte divina que flui dentro de si, isto é, reintegrando-se ao Uno Primitivo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nº33 Mercadoria antropomorfizada, homemcoisificado




          Hoje, 13 de maio de 2012, Dia das Mães e da Abolição da Escravatura no Brasil, dedicamos este blog às mães e aos afro-brasileiros, desejando-lhes sempre uma vida humana e onde a liberdade e o amor encontrem sua verdadeira significação, sem qualquer semelhança com Alphaville. Que as palavras que usamos para expressarem nossos desejos não sejam estereótipos comerciais, que aprendamos a tirar a ferrugem das palavras, como pede o poeta Domício Proença Filho, autor de excelentes livros de Poesia Negra.
          Como um preito de gratidão, oferecemos-lhes este estudo que  intitulamos "Mercadoria antropomorfizada, homem coisificado".
           Terrível quiasmo que nós mesmos criamos.
           Já não temos mais controle de suas consequências : os bullings, o tráfico e uso de drogas, a violência, a corrupção, a histeria coletiva: incêndios, quebrações.
          Os poderosos causam as crises, vão impor novos sacrifícios durante as crises e, se vencerem, continuarão injustos e gananciosos.
          Os diversos meios de informação da sociedade contemporânea, divulgadores de uma ideologia aristocrática, direitista, estão intoxicando o homem e obrigando-o a agir e pensar de uma forma pervertida e irreal, despertando necessidades que não são humanas, bloqueando-lhe comportamentos e ideias que deveriam ser exercitadas para seu próprio apefeiçoamento e desenvolvimento.
         Predomina a reificação - os homens são coisas - e as coisas estão personificadas, elas é que determinam a vontade e a consciência dos homens. A criatura humana reduz-se a um boneco que caminha com trejeitos pavlovianos, entre objetos que vivem, falam, sorriem e lhe estendem os braços.
         Este quiasmo é um obstáculo para que entremos na "nova era", a era de paz e amor; discuti-lo é estudar uma dimensão do trágico moderno, em suas mais ásperas contradições, que não se resolvem só no plano metafísico, mas que se desenrolam num plano especificamente social.
          Os tons melífluos e atraentes da canção do consumismo põem em risco toda e qualquer certeza existencial, fazem-nos perder a direção e nos empurram para o abismo. O Todo nos procura e não nos pode encontrar porque estamos fragmentados, esmigalhados pelo fator econômico.
          Os consumidores necrosados, como outros tantos "morituri" do império romano, repetem a frase: "Morituri te salutant". São aqueles que devem morrer, isto é, perder sua identidade, adorar os fetiches que internalizaram. Mesmo assim saúdam as máquinas e a máquina econômica com seu sistema de opressão e bloqueio.
          Quando, por exemplo, damos preferência a pratos típicos mineiros como torresmo e lombo assado ou estamos assistindo a uma festa folclórica e estamos pensando ser muito originais e autênticos, na verdade, nos venderam mais esta ilusão e nossos atos não passam da manifestação da praxis fetichizada e fragmentária, no tráfico e manipulação de mercadorias.
          O indivíduo deve andar em peregrinação pelo mundo para conhecer e ajudar a si mesmo e aos outros. Mas, neste simples andar pelo mundo, o sujeito modifica o mundo e a experiência obtida o modifica porque sua visão passa a refletir a sua posição para com o mundo, nas suas variações de uma ação revolucionária ou resignada.
           Os censores temem perder suas vantagens e buscam manter a ordem implantada, mas o que se encontra é o caos, coisas múltiplas e desconexas, a falta de sentido. Tentar recompor o Todo parece uma tarefa de Sísifo. Ou estará na hora de engendrar a estrela de Niezsche?
          Não temos a resposta para solucionar o problema.
          Estamos ainda num semelhante impasse ao da cidade de Alphaville da célebre invenção de Jean-Luc Godard da década de 60. Vejam o DVD deste filme. A cidade é dominada pelo computador, pelo racionalismo, que aboliu os sentimentos. O agente Lemmy Caution que não pertencia à cidade vai lá, com a missão de encontrar seu inventor, o Prof. Von Braun, e convencê-lo a destruir a máquina. Mas já que não pôde destruir o computador, todos ficaram sujeitos a desumanizar-se. Todo mundo preza a segurança lógica, a organização de Alphaville , entretanto perde o sentimento. Um dos habitantes foi condenado à morte porque chorou quando a esposa morreu. Chegaram a criar uma Bíblia que era um dicionário que a população de lá tinha que seguir, sob pena de ser castigada, de ser friamente eletrocutada. A palavra paixão foi abolida do dicionário, passou a ser "volúpia". Não se pode investigar o "por quê?" e sim só usa o "porque" que é indiscutível. Faz-nos lembrar o conceito de Rimbaud, poeta francês, "mudar a linguagem é mudar o mundo", embora numa circunstância muito diferente da que estamos falando. Há os faltosos que dão chance de recuperação, isto é, de voltarem a ser máquinas, são enviados aos h.d.l., hospitais de doenças longas. No final, os habitantes perdem a força cambaleiam, não conseguem andar. Dizem que a causa foi a falta de claridade, provocada pelos edifícios.
             E agora, José?
             Lembremos a canção espanhola: Caminhante, não há caminho, o que há é o andar